Uma vez, esperando uma empresa de fotografia abrir, um senhor que estava a minha esquerda disse: “eu estou no estrito viu”! Logo o disse: “o senhor é evangélico e já tem uns bons anos nessa caminhada, não é?!” Prontamente ele me respondeu que sim. Eu sabia, no mínimo, ele já teve uma experiência evangélica entre os anos 80 a 90 e poucos. Descobri isso pela sua fala. A palavra “estreito”, geralmente ela era usada pelos evangélicos no período que citei.
A gente não costuma refletir que possuímos linguagens próprias, que há expressões que certamente não são compreendidas de primeira mão pelos “não evangélicos”. Estou pensando em quantas pessoas entraram em nossas comunidades e não conseguiram entender o que falamos devido às expressões tipicamente feitas para os evangélicos. Sem desmerecer ou ridicularizar a canção que descreverei a seguir, muito menos aos irmãos que a cantam, os que a escreveram e a ministram em suas comunidades; no entanto gostaria de transcrever parte dela aqui: “Quem quer a glória traz a arca/ Quem quer o fogo traz sacrifício/ Quem quer a vida que suba a cruz / Quem deseja o favor do Rei/ Toca na ponta do altar/ Quem quer resposta/ Queima incenso/ Quem quer a cura/ Toca no manto/ Quem quer a honra/ Rasque suas vestes/ Quem deseja o favor do Rei/ Toque na ponta do altar...” Será que uma pessoa “não do nosso meio” compreenderia o que quer dizer “trazer a arca”? “Traz o fogo”? “Toca no manto”? E assim por diante.
Será que nosso idioma “evangeliguês”, de certa forma, não impede de que pessoas conheçam o Reino de Deus? Não será que estamos fazendo um caminho inverso que o evangelho nos mostra? Nas linguagens pelas antigas alianças do Antigo Testamento Deus havia se revelado especificamente a um povo, “um gueto”, “uma tribo”, especificamente em uma língua por meio de uma nação. Mas ele, decididamente não quis permanecer assim. Fez-se homem. Fez-se carne. Uma pessoa como todas as pessoas antes dEle. Uma pessoa, como todas as pessoas que foram presentes à sua época, assim uma pessoa como todas as outras depois Ele. E assim, é bem sabido, que, em uma Nova Aliança, em Cristo Jesus, Deus tomou uso de todas as linguagens. Os gestos e falas de Jesus, como toda a sua vida, é perfeitamente entendida por toda a humanidade. Nele Deus se fez completamente entendível.
Não estranhos construímos um caminho de desentendimento? Li um texto de Rubem Alves que dizia que Pentecoste é Babel ao contrário. Em Babel, as línguas foram multiplicadas, e os homens não se entendiam mais. No Pentecoste, os homens, por meio de uma capacitação divina, se fizeram compreensíveis quando falaram vários idiomas de diversas nações que estavam presente. Agora pergunto, e qual dessas situações o Reino de Deus saiu ganhando com o uso da linguagem?
Jesus, o Verbo de Deus – Palavra de Deus, Imagem de Deus, Comunicação de Deus – se fez carne, tornou-se pessoa. E desde então Deus se tornou, incrivelmente conhecido em carne e em verbos (palavras). Será que nosso evangeliguês não quebra o que Jesus, o Verbo, nos deu em sua Aliança? O Verbo de Deus não pode ficar recuso no nosso gueto evangélico. É preciso nos tornar compreensíveis. É Preciso fazer que o Reino de Deus cada vez mais compreensíveis.
Rubem Alves foi muito feliz na sua comparação entre Babel e Pentecoste. Mas gostaria, para finalizar, ampliar essa análise. Em Babel, o homem queria chegar aos céus. Queriam isso por eles mesmos, sem verbo, sem o próprio Deus em carne. Por isso Deus os condenou a não intercalações. Passaram a ficar incomunicáveis. Pessoas sem o Verbo, e por isso, sem “verbalizar” (se comunicarem em Deus) não chegaram ao céus e perderam relacionamentos antes construídos. No Pentecoste, homens, governados pelo Verbo, vivendo a vida do Verbo em suas próprias carnes, agora verbalizam Deus (comunicam seu Reino, sua graça) mesmo sem saberem idiomas, mesmo naquela mesma situação em que em Babel os homens tiveram que se separarem. Agora, homens se reúnem, comunica-se, o Verbo faz Deus conhecido através de pessoas. E assim pessoas, por Verbo em carne, encontram o Reino dos céus!
Que diferença né?! De perdidos para salvos graça ao “Verbo” usado. De pessoas como empecilhos à pessoas como instrumento de conquistas honradas. Evangeliguês, dá para erradicar?!!!